[Já fiz um comentário no meu facebook, mas achei que isto merecia um texto mais elaborado, e também mais público - e é também uma excelente desculpa para eu ressuscitar este blog]
Alexis Tsipras acusou Portugal e Espanha de terem um plano para derrubar o governo do Syriza na Grécia.
Link para a notícia no Público
Não é de agora, mas cada vez mais os Gregos sofrem de um sindrome de excesso de importância.
O tempo em que eram uma das principais potências europeias já lá vai há muito tempo. E mesmo nessa altura já eram mais conhecidos pela filosofia e pelos sistemas politicos complicados, do que pelas ciências exactas.
Tsipras acha que o Syriza tem importância suficiente para os governos de Portugal e Espanha estarem a conspirar para o derrubar. Tal como o povo grego acha que é suficientemente importante para que os outros povos da europa continuem a pagar a sua boa vida.
O que Tsipras e os gregos deviam perceber é que:
1 - Derrubar o Syriza não passa pela cabeça de nenhum governante em Portugal, porque:
- Ver o Syriza a ser obrigado a aplicar austeridade;
- ou a Grécia a sair do euro, com todas as consequências nefastas que isso acarreta;
- é a demonstração do que acontece quando se aplica o outro caminho que a esquerda apregoa.
- Nada agradaria mais ao govero Português, do que demonstrar como esse outro caminho é uma falácia (e para quem ainda tenha dúvidas, é mesmo).
2 - Portugal só quer que os gregos paguem integralmente os 1100 milhões de euros de dívida grega que está nas mãos de instituições portuguesas (mais os 1.5 mil milhões que é a nossa parte nos empréstimos do BCE).
- Para quem tem dificuldades em apreender números desta magnitude, são 257 euros e 70 centimos por cada português - é esse dinheiro que os nossos governantes estão a defender quando são intransigentes na Europa em relação à Grécia
- Para se ter uma ideia, em Espanha são 715 euros por habitante (não admira que eles alinhem conosco)
- Já se percebe que aquele mito que a Alemanha é a única a emprestar e a enriquecer com os juros é uma história da carochinha.
3 - Quem veja os números percebe como o problema da Grécia não vai lá com ajuda externa, se antes os gregos não resolverem os seus problemas internamente.
- Os juros da dívida portuguesa custam ao estado anualmente (neste momento) 5% do PIB. Ou seja, quando ouvimos que o défice das contas públicas foi de 4% do PIB, isto quer dizer que se Portugal não tivesse divida externa, Portugal teria 1% do PIB como excedente. Ou seja, não fossem os juros da dívida, Portugal estaria a gerar mais dinheiro do que a gastar.
- Ora na Grécia, apesar de no total a dívida representar uma maior percentagem do PIB do que em Portugal, o custo anual dos juros desses empréstimos é de apenas 2% do PIB, ou seja, uma situação que já é muito mais aliviada que a de Portugal. Portanto só lhes falta fazer o trabalho de casa, e é nisso que os gregos se deviam concentrar.
Depois de recebermos o dinheiro todo (que muita falta nos faz), os gregos podem sair do euro e transformar a Grécia numa Cuba europeia... estão à vontade. Até nos dava jeito um novo destino de férias em conta, e mais à mão, que ainda temos muitos anos de vacas magras pela frente.
Para mais informações sobre a dívida grega, e uma explicação mais detalhada sobre os números que apresento aqui, podem consultar estes artigos:
- Quanto custa a dívida da Grécia?
- Se a Grécia não pagar a dívida, não paga a quem?
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