sábado, 8 de fevereiro de 2014

Mir'ós quadros a serem vendidos

Alguém consegue perceber como é que as mesmas pessoas que se queixam da austeridade que o governo teve de impôr para controlar o défice, são as mesmas que querem impedir o governo de amealhar dinheiro que possa atenuar essa austeridade ao leiloar uma colecção de 85 quadros do pintor Miró, que fazia parte do espólio do BPN?!
Sou só eu que acho isto de uma hipocrisia flagrante?!

A esquerda mais radical reclama que o governo está a matar a cultura.
Mas a cultura alimenta alguém? - respondo eu - Só se for cultura de batatas e legumes!
Faz sentido ter muitos milhões empatados em quadros, sendo nós um país tão endividado?
Que pensariamos se entrássemos na casa de uma das milhares de familias portuguesas em dificuldades e víssemos um quadro valioso pendurado na parede?

António José Seguro aplica um discurso que é capaz de enganar alguns, mas não quem pense um bocadinho no assunto.
Diz ele que não se devem vender os quadros porque atraem turismo e o país ganharia mais com esse turismo.

Mas o homem faz alguma ideia de quanto custaria a infraestrutura para albergar uma colecção cujos quadros valem milhões?!?
Edificio, sistemas de segurança, funcionários... isso custa muito dinheiro. Mas ele fez as contas? Sabe em quantos anos recuperaríamos o dinheiro que não iamos receber agora? Será que alguma vez recuperaríamos?
Como de costume falou por falar, só para ser do contra, sabendo que se fosse governo estaria a fazer o mesmo.

Se Miró fosse português, eu conseguia perceber a importância de tentar manter a colecção de quadros junta e em Portugal. Mas Miró é espanhol, e ninguém em Espanha está suficientemente preocupado com o destino desta colecção para se chegar à frente com os milhões necessários para a comprar. Então porque deveriamos nós estar preocupados com isso?

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Atitudes que não fazem falta

Na semana passada, dois destaques que andaram pelas noticias, em esferas completamente diferentes, provocaram-me náuseas, pelo que têm em comum, o joguinho sujo de bastidores que já era tempo de erradicar do nosso país.

Uma delas foi a gincana política do referendo sobre a adopção e co-adopção por parte da JSD. A outra o joguinho psicológico do presidente do FC Porto sobre a arbitragem.

Quanto ao presidente Pinto da Costa, infelizmente já estamos habituados.
Quem quis, ouviu provas inequivocas de que controlou a nomeação dos árbitros durante anos (as escutas andaram em tempos pelo youtube) mas como os juízes da comarca do Porto frequentam o camarote do estádio do dragão, é como se não tivesse acontecido nada.
Quanto ao Benfica-Porto de que se queixa, eu vi o jogo.
O que eu vi foi um árbitro a favorecer o porto durante 80 minutos, enquanto o jogo ainda estava em discussão, e depois a decidir dois lances polémicos a favor do Benfica nos últimos 10 minutos quando:
- o Porto já tinha o jogo perdido;
- decidir esses dois lances a favor do Porto ia tornar demasiado óbvia a parcialidade.
Diria até que os alegados erros finais do árbitro do encontro deram muito jeito a Pinto da Costa para ele se queixar, e tpar com a peneira o facto de que os milhões que tem ganho com a venda de jogadores e treinadores não estão a ser rentabilizados...

Mais grave é o que aconteceu relativamente ao referendo da adopção e co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo.
O que está em causa não é o assunto ser a adopção de crianças por casais do mesmo sexo, nem se faz sentido um referendo sobre isso. O assunto é delicado, é fracturante, e uma consulta à população até pode fazer sentido. O que está em causa é a forma e o momento.

Então o governo tem passado todo o seu mandato a falar e a aplicar austeridade por causa da situação económica do país, e agora já há dinheiro para um referendo?!?
Eu conseguia perceber se fosse um referendo sobre uma questão essencial para o futuro do país, mas, com o devido respeito por todos os casais do mesmo sexo que pretendem adoptar uma criança e por todas as crianças que eventualmente teriam um vida melhor adoptadas por um casal do mesmo sexo que a instituição onde se encontram, quantos milhares de pessoas irá afectar o resultado deste referendo?
Justifica realmente fazer um referendo agora? Eu respondo: claro que não!

Então o que é que justifica esta iniciativa descabida, nesta altura, vinda do partido do governo, e que sabota claramente a mensagem que o governo tem passado ao país nos últimos 2 anos e meio?
Eu só vejo um lobby com poder para fazer o PSD dar tamanho tiro no pé. Para mais é um lobby que normalmente apoia o PSD e o CDS, que tem algum peso no país (cada vez menos), mas que ultimamente tem vindo a público criticar o governo (sem apresentar nenhuma alternativa). Estou a falar obviamente da igreja Católica.
Será este referendo o preço a pagar pelo silêncio da igreja até às próximas eleições?

Esta conversa levava ao laicicismo do nosso país, que está no papel, mas que não passa do papel... mas isso fica pra outro dia.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Uma Providência Cautelar contra as Providências Cautelares

A Providência Cautelar é um instrumento legal consagrado no direito, para impedir que actos irreversíveis sejam praticados, enquanto não é tomada uma decisão judicial sobre determinada disputa.
Exemplos de actos irreversíveis são a destruição de provas ou de bens materiais. Contratos e transacções financeiras podem ser revertidos, logo não se enquadram nos casos onde é passivel a aplicação da Providência Cautelar.

O problema é que hoje em dia, a Providência Cautelar é usada por tudo e por nada, como agente bloqueante, só para chatear, e com a cobertura de uma certa classe de juízes, que gostam mais de usar o seu "poderzinho" em decisões que deixam tudo como estava, e que por isso não os comprometem, do que ter a coragem de aplicar a lei, doa a quem doer.

Isto vem a propósito da declarada intenção de Garcia Pereira em pedir uma Providência Cautelar para travar o negócio do aluguer dos estaleiros navais de Viana do Castelo à Martifer.

Eu percebo a lógica de Garcia Pereira, afinal, assumindo que a Providência Cautelar é aprovada, esta é uma situação onde ele fica sempre a ganhar.
Ora vejamos:
- Se no final o governo for obrigado a voltar atrás com o negócio com a Martifer, então Garcia Pereira vai promover-se como o salvador de 600 postos de trabalho.
- Quando logo de seguida o governo fechar de vez os estaleiros navais de Viana e vierem 600 pessoas para o desemprego, vai ficar muito indignado, mas não muito preocupado, porque a taxa de votantes no PCTP/MRPP é bem mais alta entre os desempregados.
- Se a decisão for favorável ao governo, também não há problema, porque entretanto já conseguiu atrasar a entrada da Martifer nos estaleiros, e por isso não serão criados os 400 postos de trabalho referênciados pela administração da empresa. Na campanha eleitoral vai poder apontar o dedo à Martifer por não ter criado os postos de trabalho prometidos, embora tenho sido ele a provocá-lo. E se por causa disso houver mais desempregados, não faz mal, são mais votos no PCTP/MRPP.

Fico à espera para ver a decisão do tribunal.
E também da decisão de Garcia Pereira em pedir a reforma antecipada. O país agradecia.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Os discursos de Cavaco

Há um ano, Cavaco brindou-nos com a sua convicção de que estávamos numa espiral recessiva.
Falta de fé nos 25% de Portugueses que levam às costas os outros 75%.
Mas um ano depois, cá estamos, sem espiral, pelo contrário com dois trimestres de crescimento (ainda muito tímido, é certo) mas que já devia ter feito muita gente vir fazer mea culpa a público.
Infelizmente, neste país os comentadores espalham-se ao comprido e depois assobiam para o ar como se não fosse nada com eles.

Cavaco também assobiou para o ar no seu discurso deste ano.
Falou do crescimento, mas esqueceu convenientemente o que tinha dito o ano passado. Falou do futuro pós Troika, falou de esperança.
Mas falou acima de tudo de consenso. Só que, como sempre, atirou o consenso ao ar, à espera que miraculosamente alguém o apanhe.
Ainda não percebeu que, em Portugal, enquanto não apontar o dedo as coisas não avançam?!

Já estou a ver a reação da pandilha de Socráticos que ainda manda no PS a reagir com satisfação, dizendo que o Presidente mais uma vez censurou o governo pela sua falta de diálogo. Quando na realidade é o PS com o seu eleitorlismo bacoco que não é capaz de qualquer negociação construtiva com os partidos do governo.

Se eu fosse o Presidente, já há muito tempo que tinha tornado público, com uma explicação pedagógica das razões, uma lista básica de regras que não estão abertas a discussão. Por exemplo: não saímos do Euro, temos de diminuir a despesa abaixo de 2% acima do PIB em poucos anos, etc.
Depois chamava os três lideres a Belém, e fazia eu um calendário apertado de reuniões, a sua agenda, e mediava eu mesmo essas reuniões.
Se estamos numa situação de emergência que justifica um esforço dos partidos em atingirem um consenso, acho que também justifica o esforço pessoal do Presidente para ajudar a esse consenso.